Veredas
Veredas_a revista virtual de literatura do Vale
Mais um conto inédito!
Todas as quartas-feiras, um novo texto ambientado na região!
Apresento um texto de Nilza Helena da Silva Vilhena, funcionária pública que tem satisfação na leitura e na escrita (e se delicia em contar as histórias que curte aos amigos). Nilza participa do Curso de Formação de Escritores do SESC; uma preparação, enquanto alinhava seu livro. Em “Angústia”, Nilza constrói o texto para iludir e arrastar o leitor a um divertido final, corroborando com Proust: “Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem.”
Angústia
Acordei com um gosto amargo na boca e uma pontada na cabeça. A Madrugada foi péssima e o mal estar, me dizia a experiência, iria piorar. Acredito que a culpa deva ser do sapo que trago entalado na garganta.
Pela janela contemplei o horizonte e sorri ao ver o meu Cappuccino com creme. Era como pareciam, para mim, os morros ao redor de Jaraguá, assim logo cedo. Fiquei ali parado me deliciando como o sol, que vinha lamber toda aquela cobertura doce, desnudando pouco a pouco minha paisagem favorita. Mas o mal estar, este não arredou pé, não passou e o sapo teimava em continuar por ali.
A casa estava silenciosa e vazia, constatei. Melhor assim, pois não teria que dar explicações logo cedo e já bastavam todas aquelas pessoas me esperando, querendo saber, querendo opinar, não seria fácil, mas eu teria que enfrentar.
Ao me dirigir até o carro, olhei na direção do Boa Vista, e ele, enquanto vigiava supremo nossa cidade, pareceu me dar bom dia de uma forma solene. A impressão foi tão forte que respondi no mesmo tom.
Fui guiando sem pressa, pois diminuindo a velocidade aumentaria, não a distância que me separava de situação tão desagradável, mas o tempo da chegada, raciocinei numa física amadora.
Próximo a igreja um grupo de idosos embarcava para uma viagem de ônibus. Em seus rostos uma aparência cansada e sem ânimo e só pude pensar: tão pouco a esperar… Mais à frente estudantes aguardavam impacientes na faixa, pela cortesia dos motoristas. Parei, e eles sorrindo e acenando foram passando, naquela algazarra cheia de vida da infância e da adolescência e só pude pensar: tanto a esperar… Comecei a rir, alto e nervosamente, como podia ficar ali filosofando enquanto as pessoas me esperavam em situação tão delicada. Acelerei ganhando a Getúlio e, embora fosse cedo, já havia movimento significativo e o trânsito estava lento. Logo vi o motivo, próximo a Câmara os bombeiros já juntavam um motociclista, atraindo transeuntes e motoristas curiosos. Cena cotidiana e infeliz em Jaraguá do Sul, pensei aborrecido.
Agora o trem. Ótimo, comemorei, retardaria ainda mais minha chegada. Ergui os olhos e o Boa Vista continuava a sua vigília, o sol já estava quente e o dia prometia. Meu estômago roncou e me fez lembrar que junto com o desjejum viria toda aquela confusão. Uma pontada mais forte na cabeça e aquela sensação de que não podendo evitar a situação, teria que seguir em frente. O que já era possível, pois o trem passara e a cancela liberava minha passagem.
Estacionei próximo ao museu e segui caminhando vagarosamente pelo calçadão, tentando aplicar minha física amadora e incompetente novamente, diminuindo a velocidade para aumentar o tempo ao ponto de chegada. Pelo menos logo me livraria dessa sensação horrível de ansiedade, frustração e desse maldito sapo atravessado na minha garganta. De onde estava já avistava a confeitaria e vários conhecidos do lado de fora… a angústia que me consumia era tanta que tinha a impressão que todos já estavam me olhando e me apontando. Olhei para os lados e me certifiquei de que não tinha como escapar, não seria fácil e, agora, mais próximo do local, efetivamente, estavam me olhando e apontando.
Respirei fundo e, antes de chegar à turba, soltei entre dentes: droga de Juventus.
Edição: Carlos Henrique Schroeder é crítico literário, escritor e editor. Autor de oito livros, dentre eles A rosa verde (Edufsc) e Ensaio do Vazio (7 letras). É editor da Design Editora e da Editora da Casa. Assessor do SESC Santa Catarina na área de Literatura. É curador da Feira do Livro de Jaraguá do Sul e do Cineclube de Jaraguá do Sul. É cronista fixo (escreve aos sábados) nos jornais A notícia e O Correio do Povo e suas oficinas já formaram mais de uma centena de escritores.












