Tradição familiar
Diz a lenda que o padre de uma cidadezinha do interior falava mal daquela família que não era muito católica, literalmente, e cujos homens tinham fama de mulherengos.
Em cada sermão o padre arrumava um jeito de criticar a dinastia até que a paciência do patriarca acabou e ele invadiu uma missa dominical, a cavalo e ameaçou o padre de morte.
Depois daquela cena, presenciada por toda a comunidade, o bispo foi chamado às pressas para re-abençoar a igreja invadida. O homem irado e seus descendentes passaram a ser discriminados na cidade e na região.
Um dos jovens evitados teve a idéia de acabar com a perseguição. Foi até um cartório do qual era amigo do tabelião e trocou o desgastado sobrenome espanhol por ‘Augusto’, inventado na hora da troca: Antônio ‘Augusto’.
Ele cresceu teve filhos e espalhou o sobrenome Augusto pelo Brasil.
Um dos seus netos levava no sangue a tradição familiar de não deixar barato as questões mal-entendidas. Decididamente, não fazia parte da turma do “deixa – disso”. Algumas vezes quase chegou às vias de fato por causa das piadinhas por ser o “homem sem sobrenome” e até por não conseguir montar uma árvore genealógica, afinal só tinha duas ascendências.
Conheceu uma menina catarinense e casou-se. Na cidade dela havia um hábito cultural que era seguido por todos: o pai da noiva doava um terreno (“schon”) para o casal. Porém, no seu caso, não recebeu o tal dote familiar.
Passado um tempo de casamento, sua mulher engravidou e o sogro, desavisado, foi pedir ao genro que utilizasse o sobrenome alemão da tradicional família de Jaraguá do Sul, de modo que a criança também não ficasse fadada a ser chamada de “sem sobrenome”.
A resposta para a sugestão do sogro alemão foi direta:
- Não teve terreno? Não tem sobrenome!
Na certidão de nascimento ficou escrito: Luis Augusto.
Marcelo Lamas escreve para jornais, revistas, blogs e livros desde 1994. É engenheiro eletricista e especialista em marketing, comunicação e negócios. marcelolamas@globo.com













