Um conto baseado em Deuteronômio 22,13.
Algum lugar da Palestina. Três ou quatro séculos antes de Cristo. A lei mosaica imperava. E o Senhor abençoava quem seguia a lei, e amaldiçoava quem se desviasse dela.
Ela era a moça mais linda que Urias tinha visto. Caminhava como as filhas de Sião, olhando com o canto dos olhos, de pescoço erguido, balançando colares, brincos e argolas nos tornozelos, chamando a atenção para seus pés delicados, dentro de sandálias trançadas até o meio das canelas. A túnica que Sara usava ia até um pouco abaixo dos joelhos, de modo que as panturrilhas, bem torneadas e morenas, luziam ao brilho do sol.
Sara tinha dezesseis anos, e já estava prometida em casamento. Urias aguardava ansioso a noite de núpcias. Sonhara várias vezes com essa noite. A noiva o olhava timidamente, e, aos poucos, tirava a capa e a túnica de linho branco que deslizavam pelo seu corpo de adolescente. Ele a tomava pelos braços, e suas bocas se uniam num beijo quente e úmido.
O casamento transcorreu tranquilo, todos estavam felizes. Principalmente Urias. No entanto, não se podia dizer o mesmo de Sara, e o noivo pensou, deve estar preocupada com sua primeira noite, coitadinha, nunca conheceu homem.
À noite, Urias foi paciente com sua pombinha que gemia baixinho e suava como uma camponesa numa tarde quente de sol. Urias estranhou. Ele entrou com muita facilidade naquele corpinho. Estocou várias vezes, no começo devagar, depois com rapidez, chegando a ser até um pouco agressivo.
- Você não vai sentir dor? – gritou o noivo.
Ela enrubesceu.
Não havia marcas vermelhas no lençol.
Na manhã seguinte, ela foi levada às Autoridades. A denúncia foi confirmada. Só restava cumprir a lei de Javé, o deus hebreu. Sara foi levada amarrada até a frente da casa dos seus pais. O primeiro a levantar o braço com a pedra na mão foi Urias. Depois voou sobre ela uma chuva de pedras. Ela caiu e se encolheu como um feto. O sangue melou a terra. A moça ainda levantou um braço num último pedido de clemência, mas não adiantou.
O braço caiu ao lado do corpo.
Deu seu último suspiro.
Estava morta.
Fernando Bastos é pesquisador e artista plástico. É autor de “Teofania – Homens que viam e conversavam com Deus”, publicado pela Design Editora.