Sobre amigos e chifres
Acho que vou comprar um divã, um cachimbo e instalar uma plaqueta com os caracteres “psicanalista” no meu apartamento. Como se não bastasse a lamúria de minhas amigas, pedindo conselhos a respeito das traições dos namorados, agora dois amigos meus entraram para o seleto clube dos cornos. Eu tento acalmá-los, digo que essas coisas acontecem, eles choram, fazem cena, o típico comportamento do macho acuado. Um deles é um caso atípico, é um “bicorno”, pois a namorada, uma respeitável divorciada, anda por aí com o ex-marido e com mais um amante a tiracolo, um verdadeiro alce, o coitado. Comprei para ele o “Guia dos Cornudos”, do escritor francês Charles Fourier, para tentar consolá-lo, pois o livro traz dezenas de tipos de chifrudos, de tal maneira que praticamente basta estar vivo para se enquadrar em um de seus exemplos. Embora eu nunca tenha passado pela situação (ao menos acredito nisso piamente), os meus amigos acham que por eu ter uns livros encalhados nas livrarias conheço profundamente a alma feminina, mas eu nem sequer entendo porque elas usam salto alto (que deve doer, faz barulho e dá varizes). Para o “bicorno” expliquei que ele poderia se enquadrar nas três principais categorias: manso, como Napoleão e Luís XVI, furioso, como Otelo, que nem bem corno era, mas agiu como tal, e os funcionais, que aceitam ser cornos para tirar vantagem, como Abraão, que fingiu ser irmão da esposa, vide o Antigo Testamento. Acho que ele é “bicorno” em todos os sentidos, pois têm as características do manso e do funcional. O outro caso é mais grave, pois além de conhecer bem o corno, conheço muito bem a mulher e o “corneador”, e para piorar, os três me pedem conselhos. Contei para cada um deles uma história do Antigo Egito, que nos remete ao escriba do faraó Nebka: ao descobrir que sua bela esposa recebia um camponês em seus domicílios e que ele, após o coito, costumava se lavar num pequeno lago nos jardins do escriba, resolveu colocar um jacaré no lago e usar sua influência junto ao faraó para que a esposa fosse decapitada. Por simples que pareça, a histórica diz muito sobre o dilema sexual do antigo Egito: mesmo num mundo onde homens construíam pirâmides, os triângulos eram intoleráveis. Mas eles não se impressionaram com a história, e cada qual continuou com seu papel. Meus amigos chifrudos me ligam quase todos os dias, com as mesmas choradeiras, eu lhes digo para partirem para outra, mas nada, se não me ouvem, por que me incomodam? Eles que fiquem se enroscando nos fios de luz pelas ruas, ao invés de me perturbar. Bom, eu lhes disse: vocês param de choramingar ou escrevo uma crônica sobre vocês! Dá para ver que eles continuam cornos… E me perturbando…










