19 de novembro de 2008 , 08h06
Veredas_revista virtual de literatura do vale_número_17
Mais um texto ambientado na região!
Hoje vamos de Suelen Rocha, que é graduada em Artes Visuais, cantora (foi finalista do ídolos), compositora e designer.
Cabeças
Suelen Rocha
Luzes vagueiam soltas no meu olhar. Percebo o mundo girante em velocidade alta enquanto, trôpega, caminho em direção ao ponto. Do meu ponto de apoio, na Epitácio.
Ri muitas vezes da irônica proximidade entre o nome dessa rua e da inscrição tumular. Visualizava escrito em minha lápide “E deu-se, por bons trocados, na Epitácio”. Lacrimejava de tanto rir, enquanto me espalhava pela calçada, esperando ser solicitada.
Isso há dias atrás. Hoje a graça permanece escondida na minha cabeça, encoberta pela autopiedade que me acomete quando estou drogada.
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Era tarde de uma noite abafada, como as noites estavam desde o princípio de março - aquele céu de poucas nuvens, quase sem vento, antecipando um dia de calor insuportável.
Os carros que passavam sempre desaceleravam quando se aproximavam dela, e ela, como de praxe, oferecia sua carne a um preço menor, porque os clientes eram poucos àquelas horas da madrugada. Então um deles contratou seus serviços.
A rua, enfim, vazia.
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Olho o corpo perfeito que adorna aquela imperfeição de caráter e me recrimino por pensar que posso julgar alguém. Não pergunto nome, mas não resisto perguntar se tem namorado. Ele diz que não é gay, e sim masoquista. Eu rio, ainda zonza, brincando que esse tipo de gente não existe em Jaraguá. Ele ri e pergunta se eu tenho maquiagem comigo.
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Ela se lembra do pó. De muito pó. E de luzes brilhantes demais para conseguir manter os olhos abertos. Consegue sentir a mão molhada por algo viscoso, e quase ri de pensar o que pode ser. A cabeça nem lateja, retumba. A dor é tão forte que nasce nas mãos um impulso de alcançar uma faca e contar o próprio pescoço. Mas ela não sabe de onde vem esse impulso.
E os dedos ardem, como se tivesse acendido seu isqueiro neles.
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Todos olham para a cabeça-caída e perguntam se será teatro. Alguma intervenção urbana, palpitam os entendidos, que não param para olhar muito tempo. Uma brincadeira de mau gosto, macabra e sem nexo, que “com certeza foram aqueles moleques das calças caindo que fizeram!”
Ao contrário do que imaginam os céticos, a cabeça continua caída. Ela parece tão plástica que alguns arriscam chutar para o canto da praça. A Ângelo Piazera cheira a podre, mas ninguém percebe.
A noite é quebrada pela luz da sirene de um carro de polícia. Vêm tantos fardados que, quem olhasse de algum prédio, poderia achar que os bandidos ainda estavam por lá.
A cabeça-caída-chutada mais falada do dia é recolhida. Parece uma máscara de moça da vida, mas se descobre rosto de rapaz excessivamente maquiado, daqueles que, segundo uma senhora que nada tinha a ver com história, “dão-se, por bons trocados, na Epitácio”.




