Arquivo da categoria ‘Literatura’






19 de novembro de 2008 , 08h06
Carlos Schroeder
Por
Carlos Schroeder

Veredas


Veredas_revista virtual de literatura do vale_número_17
Mais um texto ambientado na região!

Hoje vamos de Suelen Rocha, que é graduada em Artes Visuais, cantora (foi finalista do ídolos), compositora e designer.

Cabeças

Suelen Rocha

Luzes vagueiam soltas no meu olhar. Percebo o mundo girante em velocidade alta enquanto, trôpega, caminho em direção ao ponto. Do meu ponto de apoio, na Epitácio.
Ri muitas vezes da irônica proximidade entre o nome dessa rua e da inscrição tumular. Visualizava escrito em minha lápide “E deu-se, por bons trocados, na Epitácio”. Lacrimejava de tanto rir, enquanto me espalhava pela calçada, esperando ser solicitada.
Isso há dias atrás. Hoje a graça permanece escondida na minha cabeça, encoberta pela autopiedade que me acomete quando estou drogada.
…………………………………………………………………………………………………..

Era tarde de uma noite abafada, como as noites estavam desde o princípio de março - aquele céu de poucas nuvens, quase sem vento, antecipando um dia de calor insuportável.
Os carros que passavam sempre desaceleravam quando se aproximavam dela, e ela, como de praxe, oferecia sua carne a um preço menor, porque os clientes eram poucos àquelas horas da madrugada. Então um deles contratou seus serviços.
A rua, enfim, vazia.
…………………………………………………………………………………………………..

Olho o corpo perfeito que adorna aquela imperfeição de caráter e me recrimino por pensar que posso julgar alguém. Não pergunto nome, mas não resisto perguntar se tem namorado. Ele diz que não é gay, e sim masoquista. Eu rio, ainda zonza, brincando que esse tipo de gente não existe em Jaraguá. Ele ri e pergunta se eu tenho maquiagem comigo.
…………………………………………………………………………………………………..

Ela se lembra do pó. De muito pó. E de luzes brilhantes demais para conseguir manter os olhos abertos. Consegue sentir a mão molhada por algo viscoso, e quase ri de pensar o que pode ser. A cabeça nem lateja, retumba. A dor é tão forte que nasce nas mãos um impulso de alcançar uma faca e contar o próprio pescoço. Mas ela não sabe de onde vem esse impulso.
E os dedos ardem, como se tivesse acendido seu isqueiro neles.
…………………………………………………………………………………………………..

Todos olham para a cabeça-caída e perguntam se será teatro. Alguma intervenção urbana, palpitam os entendidos, que não param para olhar muito tempo. Uma brincadeira de mau gosto, macabra e sem nexo, que “com certeza foram aqueles moleques das calças caindo que fizeram!”
Ao contrário do que imaginam os céticos, a cabeça continua caída. Ela parece tão plástica que alguns arriscam chutar para o canto da praça. A Ângelo Piazera cheira a podre, mas ninguém percebe.
A noite é quebrada pela luz da sirene de um carro de polícia. Vêm tantos fardados que, quem olhasse de algum prédio, poderia achar que os bandidos ainda estavam por lá.
A cabeça-caída-chutada mais falada do dia é recolhida. Parece uma máscara de moça da vida, mas se descobre rosto de rapaz excessivamente maquiado, daqueles que, segundo uma senhora que nada tinha a ver com história, “dão-se, por bons trocados, na Epitácio”.


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18 de novembro de 2008 , 09h46
Marcelo Lamas
Por
Marcelo Lamas

Na mochila


Recém contratado para estágio, fui convidado por dois colegas de trabalho para uma pescaria.

Eu estava com a “síndrome do invisível”, achava que ninguém me via trabalhando. Todo iniciante tem esse sentimento num novo emprego. Quando me chamaram, pensei: “Legal, os caras me convidaram”!

Na véspera, perguntei sobre o que levar para o passeio. Eu estava interessado – mesmo! – no cardápio, que era bem sugestivo.

Meu paladar rejeita quaisquer frutos do mar, inclusive camarão, o que surpreende muita gente.

Mas como eu não queria ser infiel à consideração do convite, não comentei nada. Arrumei a mochila e fui com os companheiros.

Eles sugeriram que eu tomasse um comprimido para evitar enjôo na navegação. Depois que ingeri, lembrei do alerta da minha mãe, que dizia para não aceitar nada de estranhos. Poderia ser algum entorpecente e eu mal conhecia os sujeitos direito.

O fato é que não senti nada no trajeto, até hoje não sei se foi a prevenção com o remédio ou firmeza do meu organismo.

Depois de meia hora de barco, chegamos ao lugar deserto. Eles levaram sal, grelha, carvão, espetos, cervejas e Coca-Cola.

Ah! Eu tive que ajudar a pagar o aluguel da embarcação, o que para um estagiário é um atentado financeiro, pois provoca greve de fome forçada no fim do mês.

Os parceiros eram bem profissionais, tinham roupa de neoprene, máscaras e equipamento sofisticado.

O dia foi passando e eles usando técnicas diferenciadas, as quais me explicavam detalhadamente. Acho que os peixes que circundavam a ilha conheciam os truques, pois já estávamos no final de tarde e nenhum aquático capturado.

Depois daquela pescaria, aqueles dois colegas de expediente viraram grandes amigos meus e também fiquei com fama de estrategista, pois ainda na ilha, a fome da dupla especializada e a minha acabou quando abri a mochila e tirei um cacho exagerado de bananas que eu tinha levado camufladamente enrolado numa toalha de banho, pois peixe eu não ia comer.

No final daquele mês, revezei jantares nas casas deles até receber meu auxílio sobrevivência, digo, salário de estagiário.

Ainda bem que em nenhuma noite teve pescado no cardápio.

A propósito
A banana é o quarto alimento vegetal mais consumido no planeta, ficando atrás do arroz, do trigo e do milho.

Marcelo Lamas
Engenheiro Eletricista, professor universitário, escreve artigos e crônicas para jornais, revistas, sites e livros há 13 anos.
marcelolamas@globo.com
Crônica publicada na Revista Banana D’Água – Edição 02


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17 de novembro de 2008 , 08h01
Carlos Schroeder
Por
Carlos Schroeder

Literatura


Círculo de Leitura de Jaraguá do Sul - 27ª Sessão

Especial “A literatura e o mar”

- Fala “No mar, veremos” com Cristiano Moreira
O mar como instrumento da literatura: grandes autores que usaram o mar em seus livros e o mar nas artes.
Cristiano Moreira é autor de Rebojo (Bernúncia Editora), coordenador da Editora Papa Terra e Mestre em Teoria da Literatura. Filho de pescador, acredita que “um barco é um livro de madeira”.

- Sorteio de livros

- Dicas para participar dos Prêmios Cruz e Sousa, SESC de Literatura e Edital Elisabete Anderle

- Última sessão do ano, participe!

Dia 27 de novembro, quinta-feira, 17h, Grafipel Megastore (Quintino Bocaiúva, 42)
Entrada franca

O Círculo de Leitura é um palco de idéias, um ponto de encontro para os amantes da Literatura. Há sempre um convidado de honra para dividir seus conhecimentos, e a força do evento reside em seu aspecto democrático: todos têm voz. Basta comparecer para participar do debate e comentar sobre o livro que está lendo. Não é um espaço onde as pessoas se reúnem para ler coletivamente, e sim para trocar impressões sobre os livros lidos.

Realização: Design Editora e Grafipel Megastore.
Apoio: Editora da UFSC


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14 de novembro de 2008 , 09h16
r.3
Por
r.3

Twittando marvelices


Antes de mais nada, pense que você pode achar que quadrinhos podem ser bobagem em sí, mas a grana que eles levantam é algo beem relevante. Agora imagine a Marvel Comics, e imagine a reunião master, onde as maiores cabeças do label sentam-se para definir o que vai acontecer nos próximos dois anos com todo o universo dos personagens e etc.

Coisa séria, não? Seríssima e de conteúdo secreto, mas agora olha essa: alguns dos cabeças que lá participavam estavam paralelamente atualizando seus Twitters. Os fãs enlouquecidos não perdiam uma linha, esperando novidades, mas olha o que saiu:

mattfraction Dan Slott decidiu NÃO colocar piercing genital. Em frente.

BRIANMBENDIS dan slott pelo menos tem genitais

BRIANMBENDIS joe a está aprendendo twitters

brubaker Tweet tweet

brubaker mmmm. Hamburger da Five guys

BRIANMBENDIS acabei de ver angel of death, do brubaker

warrenellis Pelo jeito, escritores de quadrinhos estão comparando os paus num encontro editorial da Marvel. Ainda bem que não participo dessas coisas

warrenellis Meu Deus, e se eles tiverem brincando de Jogo do Biscoito?

warrenellis E se Matt Fraction for o Biscoito?

Rantz1 não era para @brubaker, @mattfraction & @brianmbendis estarem planejando QUADRINHOS, ao invés de fazer piercings e ‘cruzar espadas’?

BRIANMBENDIS o matt ficou sem espaço pra brincar

mattfraction mas não tenho surpresas planejadas

mattfraction yaaaaaaaay

BRIANMBENDIS yaaaaaay

BRIANMBENDIS valeu, bru

jengrunwald @mattfraction Purê de maçã, porra! Tá feliz agora?

brubaker @jasonaaron foi muito mencionado

jasonaaron @brubaker não deixa o Axel falar merda de mim

jengrunwald o celular do @BRIANMBENDIS acabou de tocar “And IIIIIIIIII will always loooooove youuuuuuu…”

BRIANMBENDIS vai se f***! é um paródia!

BRIANMBENDIS que dia. hoje à noite, mamet. perdi minha voz.

BRIANMBENDIS @JHickman numa escala de um a fantástico foi fantástico. aliás – falaram bem de você hoje

Heuaheuhauheae, parece o Congresso.

Via Omelete.


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12 de novembro de 2008 , 10h05
Gelson Bini
Por
Gelson Bini

Feedback Terça Literária


Salve Max!

Ontem foi mais ou menos assim….só os mais confirmados!

até a próxima …


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12 de novembro de 2008 , 07h34
Carlos Schroeder
Por
Carlos Schroeder

Veredas


Veredas_revista virtual de literatura do vale_número 16
Mais um texto ambientado na região!

Hoje vamos de Denise Ravizzoni. Graduada em Letras, é redatora publicitária, roteirista e pesquisadora da obra de Edgar Allan Poe.

Exílio

Denise Ravizzoni

Desde que chegou à cidade atraíram-lhe as pontes. Não ligava para as montanhas verdes que davam forma ao vale. Não importava o céu claro a ponto de doerem-lhe os olhos. Nem os trilhos dos trens em meio ao tráfego, obrigando os carros a manobrar em direção ao passado. O magnetismo estava no murmúrio do rio que rasgava as ruas, escorrendo feito hemorragia de um grande corte. O rio e suas inevitáveis, necessárias pontes. Debruçada nas balaustradas de concreto, observava as pedras imóveis em seu eterno esforço de resistência contra águas que nunca paravam.
Em seu exílio voluntário, quis mais de uma vez escalar os pequenos muros e saltar para a veia aberta que jamais cicatrizava. Mas não naquela ponte. Nem na outra, rodeada por árvores povoadas de um passaredo loucamente barulhento. Ou ainda aquela com vão maior formado por retângulos inexatos onde eventuais pescadores matinais encaixavam as pernas para a paciente espera (os peixes não viriam nem nesta nem na próxima manhã, pois eram das garcinhas brancas que espreitavam margens ou ilhas formadas por montinhos de seixos).
Embora intensamente quente durante as tardes intermináveis, a cidade amanhecia envolta em bruma fresca. A melhor hora para suas explorações, vestida como os demais praticantes de saudáveis caminhadas. Seu álibi. O que realmente queria era mapear todas as pontes. Investigava suas origens no Arquivo Histórico, procurava saber quem era o ilustre personagem que lhes emprestava o nome.
Pensar em nomes remeteu-a ao seu e ao de outra Virgínia, a Woolf, a inglesa escritora. Ambas obcecadas por margens e rios. Ela perdida em si mesma, invadida pelas águas das monções. A outra perdida em seu universo, construindo frases atormentadas feito castelos de galhos que as águas logo levariam. Seria ela como a outra? Encheria os bolsos de pedras e se entregaria docilmente ao lodo do fundo?
Então, numa das caminhadas, depois de atravessar trilhos, aproximar-se do que parecia ser um clube, a visão que a mesmerizou. Encontrou “A” ponte. Não de concreto. Não para veículos. Madeira, cabos e cordas numa rua vazia e arborizada. Cheiro de mato e mofo. Antiga, meio bamba, as teias, produto do trabalho de engenhosas aranhas, eram enormes, brilhavam seus fios presos aos cabos refletindo todas as cores do mundo. “A” ponte que a ligaria ao entendimento de tudo. As águas abaixo eram escuras, velozes e profundas. Cenário perfeito. Era um imenso ímã puxando cada pequena partícula do seu corpo em direção àquela paisagem. E assim foi. Os primeiros passos fizeram a ponte oscilar suavemente. Riu do próprio medo. Era, no mínimo, irônico. Procurou por uma falha, uma abertura entre os cabos e sentou. As pernas soltas, suspensas, balançando, como fazem as crianças em um banco alto.
Sentia como se entendesse naquele exato momento o motivo de todas as coisas. A razão de tudo, ou a falta de. Faria ela como a outra Virgínia e se deixaria levar pela correnteza sem resistência alguma? Agora, que finalmente encontrara “A” ponte, compreenderia a atração pelas amuradas, a sensação de fascínio pelo abismo? Por alguns segundos pensou que sim. Soltou as chaves que trazia na mão até ouvir o som do objeto que encontrou a superfície líquida do impacto. Medir a altura antes de cair? Não. Não ela. Não essa Virgínia. Levantou-se com uma serenidade que não lhe pertencia há anos. Atravessou a ponte e seguiu para casa, sem as chaves, mas com todas as portas definitivamente abertas.

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Edição: Carlos Henrique Schroeder é crítico literário, escritor e editor. Autor de oito livros, dentre eles A rosa verde (Edufsc) e Ensaio do Vazio (7 letras). É editor da Design Editora e da Editora da Casa. Assessor do SESC Santa Catarina na área de Literatura. É curador da Feira do Livro de Jaraguá do Sul e do Cineclube de Jaraguá do Sul. É cronista fixo (escreve aos sábados) nos jornais A notícia e O Correio do Povo e suas oficinas já formaram mais de uma centena de escritores.


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10 de novembro de 2008 , 04h57
Carlos Schroeder
Por
Carlos Schroeder

Enquanto isso, na cidade entre-rios…


CRÔNICA

A ponte

Sônia Pillon - Jornalista e cronista

Uma ponte sempre liga um lugar ao outro, uma situação à outra… Concretamente falando, diz o bom e velho dicionário Aurélio que ponte significa “construção destinada a ligar margens opostas duma superfície líquida qualquer”. Mas o significado dessa edificação de concreto vai muito além do óbvio, ultrapassa as barreiras da banalidade e pode ganhar definições bem mais subjetivas, dependendo do ângulo de quem a vê.

Uma ponte sempre liga um lugar ao outro, mas também pode significar a transposição de uma etapa da vida para outra, uma fuga, um refúgio, um recomeço, o reacender da esperança… A literatura mundial, o cinema e a propaganda não se cansam de utilizar esse recurso para passar suas mensagens, boas ou ruins. Afinal, a imaginação é o mais fértil dos terrenos, e o que se colhe depende de quem planta…

Uma ponte sempre liga um lugar ao outro, um estado de espírito a outro… Pode significar o atravessar do inferno para o céu, e vice- versa. Um estágio para a libertação… ou mesmo a única saída possível, ainda que custe muito a quem a atravesse! Pode ser também o abandono doloroso do passado rumo a um presente que exige uma atitude de coragem…

Uma ponte sempre liga um lugar ao outro, uma situação à outra… mas para muitas pessoas trata-se apenas de um ato mecânico, repetitivo, sem nenhum significado especial. Todos os dias encontro pessoas que cruzam a mesma ponte, de lá para cá e de cá para lá, com ares inexpressivos, andares apressados, escravos do relógio, como robôs desempenhando as tarefas diárias!… A pé, de bicicleta, pilotando motos, dirigindo carros, ou caminhões, com os olhos na sinaleira e cegos para o resto do mundo!

Ontem mais uma vez me preparei para atravessar a ponte que liga o Czerniewicz e o Centro. Olhei para as águas turvas do Itapocu e sua vegetação circundante, lá embaixo, como sempre faço, e, para minha surpresa, dessa vez vi um único pato atravessando calmamente a margem do rio.

Alheio ao corre-corre alucinado que acontecia no alto da ponte, com o roncar dos motores, aceleradas bruscas e businaços, o pato bicolor se concentrava em nadar vagarosa e determinadamente até alcançar a margem do Czerniewicz. Encantada com aquela cena, tão inesperada quanto bela, segui meu caminho, que era oposto ao do pato solitário, com uma sensação inebriante de bem-estar. Aquela que era para ser mais uma caminhada rotineira e cansativa tinha adquirido a leveza de uma pluma, e o pato, nesse momento, me remetia à imagem de um gracioso cisne que passeava, majestoso, por uma lagoa…

Texto produzido na tarde de 29 de outubro de 2008, no Dia Nacional do Livro.


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10 de novembro de 2008 , 09h50
Gelson Bini
Por
Gelson Bini

Música e Livros


Image

A partir dessa terça-feira, 11 de novembro, abro espaço no London Pub, para todos(leitores e escritores) que gostam de literatura. A música será o pano de fundo, ou o veículo condutor para falarmos dos livros, sobre a literatura local, quem são os escritores da região e o que tem sido produzido. Venha saber quem está mandando na literatura mundial, o que está sendo lançado.
Saiba o que há por trás dos Best-Sellers, e como funciona essa industria que programa o que você vai ler.

Nesta terça estarei na companhia do senhor Julio Cortazar e seu Jogo da Amarelinha, James Joyce e seu Ulisses , Walt Whitman com Folhas de Relva, Willhelm Reich com o inquietante desabafo de Escute Zé Ninguém, Charles Zimmermann com Nos Confins do Oriente, Estrada para o Grande Deserto, Terra Estrangeira e muito mais.
Vocês sabiam que ninguém queria editar Ulisses? Ele foi rejeitado até mesmo por T.S. Eliot (famoso editor, e intelectual da época), mas graças a uma mulher visionária chamada Sylvia Beach, muda completamente a história e Ulisses é hoje uma das obras mais importantes do século XX.

Tudo isso, com boa musica pra acompanhar!


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5 de novembro de 2008 , 08h24
Carlos Schroeder
Por
Carlos Schroeder

Veredas


Veredas_revista virtual de literatura do vale_número 15
Mais um texto ambientado na região!

Hoje vamos de Marcelo Lamas, que é Engenheiro Eletricista e professor universitário, é articulista há mais de 10 anos e escreve para diversos jornais da região.

O xale abençoado
Marcelo Vieira Lamas

Desde o surgimento da primeira das profissões, sabe-se que a maioria das despedidas de solteiros termina no baixo meretrício. E com aquele grupo de rapazes não era diferente.
Entre eles, o Edu, recém chegado do interior do município, jovem pacato, introspectivo, com ar intelectual que não resistiu aos persistentes convites para aquela primeira noitada, pois como dizer “não” logo na despedida do seu melhor amigo de república: o Paulinho.
Eles chegaram na boate e começaram a conversar com as meninas. Ao lado do Edu estava a Samira, uma loira encantadora. Ela aproximou-se e lançou mão sobre os óculos dele, que resmungou:
- Que isso moça?
- Calma querido! Só quero sentir como fico de óculos. Disse a bela, com um sotaque estranho aos ouvidos dele.
O Edu permanecia estático, observando o lugar e escutando a música que tocava no aparelho de som e era sussurrada por Samira. Os amigos mais experientes estavam à vontade, uns dançando e outros namorando.
Depois de meia hora de conversa, a gentil garota, cansada das respostas monossílabas do Edu - sim, não, é - pediu licença, pois precisava preparar-se para o show.
O cavalheiro deu-lhe um leve beijo no rosto e começou a limpar as lentes, pois as imagens que estavam por vir seriam inesquecíveis.
Os dez minutos que precederam a apresentação pareciam uma eternidade. O Paulinho aproximou-se e perguntou:
- E aí Edu? Que beleza, né?
- Muito bom! Não achei que as meninas fossem tão simpáticas. Comentou o iniciante boêmio, entre um gole e outro de cerveja.
De repente, todas as luzes apagaram e uma única acendeu sobre o palco. A irresistível Samira surgiu em meio a uma nuvem de fumaça. Seu rosto trazia maquiagem pesada e o corpo pálido era coberto por roupas minúsculas.
Samira dançava com maestria. Pra animar a festa, os amigos do Edu jogaram o quase enforcado Paulinho no palco. Ela colocou-o sentado numa poltrona. Num coro, puxado pelo Edu, o pessoal gritava:
- Tira! Tira! Tira!
A profissional não hesitou e começou o strip-tease. Com um leve toque soltou a presilha que mantinha a cobertura sobre sua lingerie.
Não demorou e aquele tecido retangular, branco e rendado foi arremessado por ela na direção das mãos suadas do espantado Edu.
O sério rapaz não pensou duas vezes, colocou a peça acetinada sob a camisa e comentou consigo mesmo: “Essa vai comigo, como lembrança dos olhos azuis”. A noite seguiu, os rapazes tomaram mais algumas cervejas e foram embora.
Chegando em casa, ele jogou a recordação em cima do guarda-roupa, atrás de umas caixas de sapatos.
Após dois anos, chegava a hora do Edu marcar seu casamento com Marisa, uma namoradinha desde os tempos de infância. Nas vésperas do enlace, a noiva foi ajudá-lo na mudança e após esvaziar o roupeiro, começou a retirar as bugigangas da parte superior do móvel. E de lá saíram um ventilador velho, uma mala vazia, um par de chuteiras…
- Edu! Que negócio é esse? Indagou a noiva atônita.
O jovem ficou branco e seu fôlego só permitiu dizer:
- O que, Marisa?
- Este xale, de quem é?
- XA-LE? Disse Edu, lembrando-se da performance de Samira.
- É Edu! Este xale! Insistiu ela.
- Ah! É da mãe do Paulinho, aquele rapaz que dividia o quarto comigo. Ela veio de Floripa e esqueceu aqui. Argumentou o noivo encerrando o assunto.
Perto de completar seu décimo quinto ano de casamento, Edu resolveu comprar um presente pra esposa pela passagem das bodas de cristal. Quando entrou numa loja do Centro, viu a musa dos olhos azuis atendendo no balcão. Ela estava com semblante feliz. No crachá estava escrito seu nome verdadeiro e na mão esquerda havia uma aliança dourada. Temendo uma possível tentação, ele passou a evitar o estabelecimento.
Tempos depois, o casal Edu e Marisa foi convidado para um baile de fantasias no Baependi. A idéia dela era criativa: iriam vestidos de idosos.
Antes da festa, foram até a casa dos pais de Marisa, para colocar as vestimentas. O sogro trouxe um casaco xadrez e uma calça vinho que deixaram Edu quarenta anos mais velho. A roupa de Marisa caiu como uma luva, pois o seu manequim era o mesmo da mãe.
Estavam prontos e eram sérios candidatos ao prêmio de fantasia original. Quando as roupas pareciam completas, Marisa olhou para o lado, apontou para o encosto de uma cadeira e disse:
- Edu! Falta o xale!
Ele olhou e não acreditou. Aquele xale, que servira de proteção para as pernas da dançarina, estava ali, postado no mais familiar dos ambientes: a sala de estar da sogra.
A esposa comentou:
- Lembra, Edu? Aquele xale foi da mãe do Paulinho e vai ficar ótimo em mim, pois o branco combina com minha blusa…
A sogra do Edu interviu com austeridade:
- Ora Marisa! Eu jamais emprestaria o abençoado xale que uso na missa, para você ir num baile de fantasias. Tenha dó minha filha, que sacrilégio!
Edu emendou:
- Marisa, sua mãe tem razão! Não se deve misturar fé com divertimento.
Um sujeito que apareceu fantasiado de colchão ganhou a premiação da festa.


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